Volume 06, nº 6, 2016/02

LITERATURA E CINEMA: VERDADE E REPRESENTAÇÃO

As relações entre arte, verdade e representação remontam à filosofia grega. Mas o tema desta edição, n.06, ao envolver a arte cinematográfica, também nos lança para o confronto moderno. Assim, em que medida, por exemplo, o discurso sobre a verdade resiste a uma cultura das massas? Nos escritos de “Além do Bem e do Mal”, Friedrich Nietzsche, pensando em uma filosofia futura, escreve que “a inverdade é uma condição da vida”. Seria, tal postulado, uma conexão direta com o estado de coisas na sociedade moderna? Indo muito adiante, com Guy Debord e sua crítica às sociedades contemporâneas, encontramos um fragmento dialético, que, quase platonicamente, nos diz: “o verdadeiro tornou-se momento do falso”. A pergunta conduzida pelas obras de arte nesse contexto é: em que medida o seu poder de representação consegue manter relações com a verdade? A representação verossímel, no sentido aristotélico, ainda possui um lugar privilegiado em relação à verdade? Ou estaria a verdade mais próxima do disforme ou da forma acidental da vida urbana contemporânea? Por fim, quem poderá falar em nome da verdade?

Em “Erich Auerbach e a fundamentação platônica do conceito de mímesis“, encontramos o núcleo de verdade na forma artística, ainda que o crítico privilegie o “realismo” dentre as modalidades de representação, a interpretação positivista de Aristóteles é negada, como no seguinte trecho: “[…] esses críticos se preocupavam com a probabilidade e credibilidade dos acontecimentos que ele narra. O que nós temos em mente é a maneira de narrá-los.”; assim escreve Auerbach no livro sobre Dante. Nesse sentido, a autora demonstra que a definição de mímesis, na República, já apresentava uma complexidade autêntica. E mesmo que Erich Auerbach não estivesse de acordo com o projeto platônico em geral, a sua ideia de mímesis possui seus devidos estratos platônicos.

A noção de verdade no artigo “A quem ainda interessa a autonomia de uma obra de arte?” é posta em questão – e, mais que isso, em xeque, propriamente. Empenhado em vasculhar as relações de poder encobertas na origem do conceito moderno de “autonomia da arte”, a perspectiva demonstra como o entendimento da “verdade da arte”, assim como seus modos de valoração, possuem fragilidades conceituais próprias. O artigo desloca a perspectiva do gênio, do autor, da estética moderna, enfim, para o gosto do público, isto é, das massas não aristocráticas, relativizando a autoridade de quem distinguiu, na origem mesma dessa estética, os conteúdos verdadeiros dos falsos.

O cineasta Mário Peixoto torna-se objeto de investigação no artigo “Nas rebarbas do modernismo: uma análise de O inútil de cada um (1934) de Mário Peixoto”, onde se propõe uma reorientação do modernismo brasileiro. De forma original, o assunto posto em questão não é o cinema, mas a literatura (o romance), de Mário Peixoto. Apesar disso, é a confusão urbana da modernidade que se dispersa nas páginas do longo artigo – nele a verdade possível está ligada ao contingente e ao acidental. A análise do romance ressalta sua extensão de prosa: ultrapassagem do texto para o mundo, na coloquialidade, na semelhança ao diário etc. A participação expressionista, a delicadeza e a dimensão do silêncio, por sua vez, configuram um tipo de inteligibilidade particular da verdade no cenário brasileiro. É nessa medida que a linguagem do romance se relaciona com a imagem e, naturalmente, com a imagem do cinema. “Uma linguagem instável pautada na experiência, o que corroboraria para a ideia de uma escritura com tonalidades abstratas”, diz o autor.

Por fim, em “Foucault e a parresía no cinema de Tarkovski: o problema da coragem da verdade”, somos arremessados para a constelação de personagens “loucos” “marginais” “miseráveis” do cinema de Andrei Tarkovski. O artigo identifica esses personagens analisados como “cínicos”, no sentido dos últimos cursos de Michel Foucault, ocupados de uma verdade que, sendo oferecida ao mundo, frequentemente, é renegada – não reconhecida por ele. São personagens errantes que parecem trazer em seu sofrimento (e na tensão interior de suas almas) uma mensagem mais fundamental que o próprio conteúdo da mensagem: a existência da verdade. No cinema de Tarkovski encontraríamos uma garantia de verdade, ainda que oculta, ainda que presa e rigidamente posta à margem.

Finalizamos, assim, nossa edição n.06, onde a “inverdade como condição de vida”, conforme o fragmento de Nietzsche, também é posta em questão. Aqui, à maneira do cinema e da literatura – sem abandonar a matéria da vida, os documentos da vida, impressos confusamente em Tarkovski e Mário Peixoto – sem abdicar das ficções e dos seus conteúdos – defrontamos, enviesados, o possível da verdade na época atual: não apenas sua possibilidade, mas a possibilidade de sua procura.

Erich Auerbach e a fundamentação platônica do conceito de mímesis, Patrícia da Silva Reis.

A quem ainda interessa a autonomia de uma obra de arte?, Victor Galdino.

Nas rebarbas do modernismo: uma análise de O inútil de cada um (1934) de Mário Peixoto, Filippi Fernandes.

Foucault e a parresía no cinema de Tarkovski: o problema da coragem da verdade, Serguei Monin.

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