Volume 07, nº 07, 2017/01

EDITORIAL

Pela primeira vez a Revista A! definiu uma edição baseada na livre escolha de temas por parte dos seus autores. Os artigos selecionados, por esse motivo, não interagem diretamente em quase nenhum grau, no sentindo de um conjunto, são artigos aparentemente avulsos e desconexos em relação a um “todo”. Nossa procura neste editorial é organizar esse encontro repentino, apresentando a edição n.07, sem disfarçar os seus isolamentos, mas aproximando-os ao campo de interesse da revista.

Em “Vida e conhecimento: a crítica de Nietzsche ao desinteresse” retoma-se o debate sobre a noção de desinteresse na estética. Essa noção central, delimitada por Kant, é fulminada por Nietzsche na sua crítica ao Esclarecimento. Na esteira do debate nietzscheano encontramos os argumentos de Adorno, Horkheimer e Agamben. Esses autores deslocam a autonomia do campo estético para o enfrentamento histórico. Da parte dos frankurtianos, a crítica ao Esclarecimento é geral, combatendo os pressupostos de sua racionalidade “regressiva”, enquanto o objeto estético aparece por seu interesse na investigação histórica e social. Adorno e Horkheimer não reproduzem a crítica de Nietzsche ao desinteresse na obra de arte, mas Giorgio Agamben leva adiante esse pensamento enquanto interpreta as considerações do filósofo. Tornar “desinteressada” a relação com a arte significa uma queda no ciclo da práxis que a tudo nivela. “Posto em outros termos, o conhecimento não pode se limitar à esfera da práxis, ele deve produzir algo cujo o fim não seja a própria produção.”, diz o artigo. No conjunto da crítica de Nietzsche vemos destacar um problema: o conhecimento deve servir à vida.

Essa tentativa de “saltar” para fora da estética pode ser encontrada nas obras e no fazer de dois grupos colombianos de teatro, o La Candelaria e o Teatro Experimental de Cali, da década de 1970. O artigo sobre esses dois grupos acompanha uma reflexão histórica, baseando-se nas discussões de Walter Benjamin. É nítido que a noção “estética” de Benjamin não faz sentido quando desligada da verdade histórica; o autor alemão provoca, por assim dizer, o conteúdo histórico das obras e apropria-se deles para atualizar uma política no presente. Após apresentar esses experimentos teatrais da Colômbia, o artigo recupera as discussões entre Benjamin e Brecht, trazendo a problemática inerente às narrativas de ficção que tentam se haver com a história: o primerio passo é perceber a ficcionalização como uma “investigação” histórica da realidade.

O terceiro artigo pretende fazer uma releitura da Antologia poética de Vinicius de Moraes, dando a impressão de percorrer esse limiar entre a estética encerrada em si mesma e o saber que interfere diretamente na vida. Ao criticar a separação da obra poética de Vinicius em distintas fases, segmentação cara à tradição estética, o artigo procura demonstrar um liame entre toda a obra do poeta – um liame que só é possível ser compreendido na perspectiva da interação entre arte e vida, a exemplo da “Advertência” escrita por Vinicius de Moraes, onde “Vida e poesia aparecem como que indissociáveis, como se os movimentos espirituais de uma determinassem diretamente a trajetória da outra”.

Na discussão sobre a atualidade poderíamos distinguir entre a “aparência de novidade” e a “atualização” histórica de problemas que se reiteram. Assim, ao discutir o romance O punho e a renda (2010) de Edgar Telles Ribeiro,  o quarto artigo expõe um valor de “testemunho” do momento em que é escrito, isto é, o Brasil que assistia desenrolar a campanha eleitoral para a presidência da república, em 2018. O romance é lido com vistas ao conceito de homem cordial, de Sérgio Buarque de Holanda, na sua interpretação do país, junto ao conto “Medalhão” de Machado de Assis. Na leitura machadiana do Brasil o “medalhão” é um personagem recorrente no interior das elites, com seu senso de oportunismo fundamentado por um esvaziamento de todos os valores, salvo a valorização do poder. Na reaparição ficcional dos mesmos traços culturais do conto de Machado, em O punho e a renda, o debate histórico também se apresenta ao lado da narrativa literária.

Mais recente ainda, o filme Branco sai preto fica (2015), de Adirley Queirós, surge para debater o que tem recebido o nome de  borderland science-fiction. Em diálogo com o conceito de Regime Estético das Artes, de Jacques Rancière, o filme é lido na dimensão de um pensamento da realidade, na medida em que, diz o filósofo francês, “o real precisa ser ficcionalizado para ser pensado”. O filme trava uma disputa pelo “real”, privilegiando a história em outros termos: nos seus próprios termos. Nessa linha, se recuperarmos o conceito de “desinteresse” estético kantiano, criticado por Nietzsche no primeiro artigo desta edição, logo perceberemos um dilaceramento quando seu tema é um filme como esse.

Vida e conhecimento: A crítica de Nietzsche ao desinteresse, Gabriel Barroso Vertulli Carneiro.

Teatro político na América Latina: Apontamentos a partir da Colômbia e do Brasil, Juliana Caetano da Cunha.

Devoção e fidelidade à poesia na obra de Vinicius de Moraes, Rafael Martins da Costa.

“No regímen do aprumo e do compasso”: Medalhão e cordialidade em O Punho e a Renda, de Edgard Telles Ribeiro, André Luís Mourão de Uzêda.

O entre-lugar da ficção-documental de periferia em “Branco Sai, Preto Fica, Pedro Paulo Guimarães de Menezes.

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